Você conhece a verdade sobre esta obra de Delacroix?
- Diana Morais
- 14 de ago.
- 3 min de leitura
VerLuz letter #4
Há algumas semanas, quando celebramos o dia nacional da França, comentamos em nosso instagram sobre a obra mais famosa de Eugène Delacroix: A Liberdade Guiando o Povo. Hoje, retomamos esta conversa, porque toda grande obra de arte merece ser revisitada mais de uma vez. E porque, dessa vez, queremos ir além da tela.

Algumas verdades (com v minúsculo) sobre este quadro
Muitos ao se depararem com esta obra associam automaticamente à Revolução Francesa de 1789. Mas aqui está a primeira revelação: Delacroix nasceu em 1798, nove anos depois da queda da Bastilha. A Liberdade Guiando o Povo é sobre 1830, e mais especificamente os chamados “Três Dias Gloriosos” (27, 28 e 29 de julho daquele ano), quando o povo parisiense se levantou contra o rei Carlos X, que tentava instaurar restaurar o Ancien Régime. Tratava-se de um regime centrado nas mãos do rei e uma serie de medidas tomadas pelo monarca lhe trouxeram grande impopularidade. Ignorando esses sinais de insatisfação popular, Carlos X não tomou precauções militares e resultou na revolução que Delacroix retratou. A segunda revelação é ainda mais bonita: Delacroix não era um homem de barricada. Ele não pegou em armas. Por temperamento e convicção, era avesso à espada e à violência. Mas, em uma carta escreveu ao irmão: mesmo sem lutar por seu país, ao menos pintava por ele. Seu patriotismo, e sua ambição artística, encontraram na tela o campo de batalha que ele não quis travar nas ruas.
Alguns detalhes da obra que carregam sentido:

A figura central não é uma deusa, um rei ou um santo, como era o costume em períodos anteriores. A figura central é uma mulher, com os pés descalços, empunhando ao mesmo tempo a bandeira e um fuzil com baioneta. Até então, a grande pintura histórica reservava esse protagonismo a divindades e monarcas. Colocar a liberdade nas mãos (e nos pés descalços) de alguém comum, para a época, era um gesto revolucionário.
Ao fundo, avistamos a Catedral de Notre-Dame, ancorando a cena no coração espiritual e histórico de Paris.
Delacroix foi um dos pioneiros do Romantismo, movimento que nasceu como resposta ao Iluminismo. O Iluminismo prometia o paraíso pela razão pura. Ao tirar Deus do centro, entregou o Terror. O Romantismo, por reação, resgatou o que a razão sozinha não alcança: a emoção, a imaginação, o mistério. É esse o espírito que pulsa em cada pincelada dessa tela.
A Verdade (com “V” maiúsculo)
Mas há uma liberdade que nenhuma tela, por mais genial que seja, consegue conter.
Cristo fala de outra espécie de liberdade, em um dos trechos mais conhecidos do Evangelho de João: conhecer a verdade é o que liberta, e quem é libertado pelo Filho é livre de fato. Não há barricada nessa liberdade. Não há fuzil, nem bandeira, nem corpos no chão para conquistá-la.
E há uma prova viva disso que atravessa toda a história cristã: Paulo escreve sobre liberdade justamente de dentro de uma prisão. Esta é a maior demonstração de que dá para estar acorrentado e livre por dentro ao mesmo tempo. Assim como é possível estar coroado de liberdade política e, ainda assim, preso a algo que nenhuma revolução resolve.
Não precisamos corrigir Delacroix para chegar a esse lugar. O quadro é verdadeiro no que retrata: o anseio humano por liberdade é real, urgente, e ele o pintou com genialidade. Mas é também, sem querer, um retrato do limite dessa liberdade. Ela é bela. E é provisória.
Talvez seja por isso que a imagem ainda nos comova quase dois séculos depois. Ela capta um desejo que todos reconhecemos. Só não responde de onde vem a liberdade que não precisa ser conquistada de novo a cada geração. O preço da verdadeira liberdade foi pago na cruz há dois mil anos.




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