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Procura-se Cristo na tempestade no mar da Galiléia


A única paisagem marinha que Rembrandt pintou em toda a vida está desaparecida há mais de 35 anos.


Um barco, uma tempestade, treze homens



Em 1633, aos 27 anos, Rembrandt pinta Cristo na Tempestade no Mar da Galiléia. É a única obra deste pintor holandês que tem como tema uma embarcação no mar. Para a história do povo holandês, a marinha foi de muita importância, e para Rembrandt não foi diferente: o pintor aproveitou a era do ouro holandesa e fez o seu nome no período barroco.

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Uma das obras mais intrigantes do pintor retrata uma cena do Evangelho de Mateus. Jesus dorme na popa enquanto a tempestade sacode o barco e os apóstolos, tomados de pânico, o acordam gritando que estão perecendo. Ele se levanta, repreende o vento e o mar, e pergunta por que eles têm tanto medo, por que são homens de pouca fé, oligopistoi, nos diz o evangelho em grego. Rembrandt escolhe pintar exatamente o instante intermediário: a vela se rasgando, os homens em desespero, mas Cristo ainda quieto, ainda entre o sono e a resposta.


Treze figuras dividem aquele barco frágil. Uma delas nos olha diretamente, segurando uma corda, e enfrenta a tempestade de frente para nós: é o próprio Rembrandt, assinando sua presença dentro da cena. Ele não se pinta como espectador da fé alheia. Se pinta dentro do barco, também com medo, também precisando ser salvo.


A noite em que o quadro desapareceu


No dia 18 de março de 1990, durante a madrugada da festa de Saint Patrick em Boston, dois homens vestidos de policiais tocaram a campainha do Museu Isabella Stewart Gardner. Os seguranças, dois rapazes recém-formados, abriram a porta. Em oitenta e um minutos, os ladrões renderam os guardas, os amarraram no porão e levaram treze obras: Vermeer, Degas, Manet e três Rembrandts, entre eles “Cristo na Tempestade no Mar da Galiléia”, uma obra de 1,60 x 1,30 metros.


O quadro foi cortado da moldura com uma lâmina, enrolado, e nunca mais visto. É o maior roubo de arte da história, avaliado hoje em meio bilhão de dólares, e continua sem solução. O museu tomou uma decisão que muitos consideram comovente: por determinação do testamento de Isabella Stewart Gardner, nada na coleção pode ser reorganizado. Então as molduras vazias continuam penduradas exatamente onde as telas estavam, como um lugar guardado à mesa para quem talvez volte.


Uma moldura vazia não é ausência pura, é promessa de retorno. E a recompensa para quem encontrar essas obras roubadas é de 10 milhões de dólares.


A série que reabriu o caso para o mundo


Em 2021, a Netflix lançou This Is a Robbery: The World’s Biggest Art Heist (Isto é um Assalto: O Maior Roubo de Arte do Mundo). minissérie documental em quatro episódios que reconstrói a noite do roubo e as décadas de investigação que se seguiram. Ex-agentes do FBI são entrevistados, jornalistas que cobriram o caso desde o início, a diretora do museu na época e até um ladrão de arte confesso, tecendo hipóteses sobre a máfia de Boston sem nunca chegar a uma resposta definitiva. É esse, aliás, o efeito mais forte da série: ela devolve rosto e contexto a um roubo que para muita gente era só uma curiosidade de rodapé, e por um instante nos deixa quase acreditar que desta vez o quadro vai ser encontrado.


Não foi. Mas assistir é uma forma estranha e contemporânea de visitar aquela moldura vazia. Uma vigília, feita de sofá e streaming.



O que fica


Gosto de pensar que há uma coincidência bonita entre o conteúdo e o destino desse quadro. Uma pintura sobre o medo de naufragar, sobre gritar por socorro numa tempestade, desaparece ela mesma numa espécie de naufrágio silencioso, sem data para voltar. E talvez seja exatamente por isso que ela continua tão presente. A fé que o Evangelho descreve não é a ausência de medo, é o que resta depois de gritar. A moldura vazia em Boston pergunta a mesma coisa que Cristo pergunta no barco: por que temos tão pouca fé de que a luz vai voltar a habitar aquele espaço vazio? E isto não é só sobre a obra de Rembrandt…



Com carinho,


Diana

Atelier VerLuz


 
 
 

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