O Que Ninguém Te Contou Sobre as Bailarinas de Degas
A verdade por trás do tutu - VerLuz Letter #6
No dia da bailarina e do bailarino, trazemos uma referência deste universo que muitos associam a um mundo bonito e inocente, como um recital de uma criança de 6 anos. A Ópera de Paris, fundada pelo rei Luís XIV em 1669, e o Balé da Ópera é a mais antiga companhia nacional de balé do mundo. A música e o esplendor dos espetáculos atraíam o pintor francês Edgar Degas; entre 1885 e 1892, ele foi à ópera 177 vezes, sendo 55 delas somente em 1885.
Quase metade de sua obra, de meados da década de 1860 até depois de 1900, foi inspirada no balé. Ele retratou cenas tanto no palco quanto nos bastidores, desde o fosso da orquestra até os camarotes do público, as coxias e os estúdios de ensaio. Pintou músicos, cantores e frequentadores do teatro, mas as bailarinas do corpo de baile tornaram-se sua especialidade.
Escolhi Deux Danseuses en scène, de Edgar Degas, 1874. Duas bailarinas em cena, vistas de cima, como se estivéssemos observando de um camarote ao lado do palco.
Por séculos, a pintura ocidental teve um centro só: Deus. Os melhores pintores dedicavam a vida a retábulos, anunciações, martírios. A beleza existia para apontar para algo maior do que ela mesma. Aos poucos, esse centro foi se deslocando. O Renascimento já começa a olhar para o corpo humano com um interesse quase autônomo; o século XIX, com o Realismo e depois o Impressionismo, completa o movimento: agora o tema digno de pintura é a vida moderna: a lavadeira, o café, o hipódromo, o bastidor da Ópera. Foi nesse deslocamento que nasceu o “pintor de bailarinas”. E o que Degas pintou, sob a beleza dos tutus, não era inocente: as bailarinas da Ópera de Paris daquela época eram, em grande parte, meninas pobres, sustentando suas famílias, expostas a um sistema de abonnés, assinantes ricos, com acesso privilegiado aos bastidores.

óleo sobre tela - 61,5 cm x 46 cm - The Courtauld Gallery, London
Neste quadro específico, Degas nos coloca exatamente nesse lugar: olhando de cima, do ponto de vista de quem tinha esse acesso. As duas bailarinas têm expressões que mal conseguimos ler. Uma terceira figura, à esquerda, é cortada pela composição, sugerindo que havia mais cena do que conseguimos ver.
E, ainda assim, pergunto: será que o ballet que essas meninas dançavam naquela noite não guardava nada de belo, nada que pudesse elevar quem o assistia? Acredito que sim. A graça de um corpo em movimento, a disciplina, a forma, isso não deixa de ser real, de apontar para algo maior, só porque a plateia ao redor era imperfeita, e o sistema, injusto. A beleza pode atravessar um lugar quebrado sem se contaminar por ele. Talvez o mais honesto não seja dizer que ali não havia nada de elevado, mas que a beleza genuína e a exploração coexistiam, lado a lado, sem se confundir: uma revelando Deus a quem tinha olhos para ver além do espetáculo, a outra reduzindo a bailarina a mercadoria, para quem só via o corpo.
Fica a pergunta, hoje: como consumir arte, seja a pintura, seja a dança, de um jeito que nos eleve de fato, e nos aproxime de Deus, mesmo quando o palco ao redor está longe de ser perfeito? Como a escolha do espectador influencia nossa cultura e o nosso imaginário?




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